Issue 1 | 1st January – 30th June 2021
Fascículo 1 | 1 de janeiro – 30 de junho 2021
XVII
VOLUME
UNIVERSIDADE AUTÓNOMA DE LISBOA
e-ISSN 2183-4806
FREE | GRATUITO
Issue 1 | 1st January – 30th June 2021
Fascículo 1 | 1 de janeiro – 30 de junho 2021
XVII
VOLUME
UNIVERSIDADE AUTÓNOMA DE LISBOA
e-ISSN 2183-4806
FREE | GRATUITO
PSIQUE | Volume XVII | Issue 1 | 1st January – 30st June 2021
Semiannual Publication. Scientic Journal of the Centre for Research in Psychology – CIP – from the Universidade
Autónoma de Lisboa – Luís de Camões.
PSIQUE is a scientic journal in Psychology published by the Centre for Psychology of the Universidade
Autónoma de Lisboa.
Since 2005, PSIQUE has been publishing original papers in the scientic eld of Psychology, in its
several elds of specialization, in open access and free of charge.
From 2018, it is a semi-annual journal publication from 1st January to 30th June and from 1st July to
31st December.
Aims and Scope
It is particularly aimed at psychology researchers, lecturers and students but also at general readers
who are interested in this eld of science.
Psique publishes advances in basic or applied psychological research of relevance for understanding
and improving the human condition in the world. Contributions from all elds of psychology addressing
new developments with innovative approaches are encouraged. Articles that (a) integrate perspectives
from dierent areas within psychology; (b) study the roles of physical, social and cultural domains in
human psychological processes; or (c) include psychological perspectives from dierent regions in the
world are particularly welcomed.
The journal publishes papers in Portuguese, Spanish, French and English.
Directory: Repositório Cientíco de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP).
Databases: Repositório Institucional da Universidade Autónoma de Lisboa (Camões).
Indexed by: Academic Search (EBSCO Publishers)
Fuente Academic (EBSCO Publishers).
PSIQUE | Volume XVII | Fascículo 1 | 1 de janeiro – 30 de junho 2021
Publicação semestral. Revista Cientíca do Centro de Investigação em Psicologia – CIP – da Universidade Autónoma
de Lisboa – Luís de Camões.
A Psique é uma revista cientíca em Psicologia, editada pelo Centro de Investigação em Psicologia da
Universidade Autónoma de Lisboa.
Desde 2005 publica artigos originais e comunicações na área cientíca da Psicologia, nos seus vários
domínios de especialização, de acesso livre e gratuito.
É um periódico semestral, a partir de 2018, com data de publicação de 1 de janeiro a 30 de junho e de
1 de julho a 31 de dezembro.
Âmbito e Objetivos
Dirige-se particularmente a investigadores, docentes e estudantes em Psicologia, mas também aos lei-
tores em geral que se interessem pelo conhecimento desta ciência.
A Psique publica avanços na investigação cientíca básica ou aplicada, em Psicologia, com relevância
para compreender e melhorar a condição humana no mundo. A Psique encoraja a submissão de con-
tribuições de todos os campos da Psicologia, produzindo novos desenvolvimentos cientícos, através
de abordagens inovadoras. Particularmente bem-vindos são os artigos que: (a) integram perspetivas de
diferentes áreas da Psicologia; (b) estudam o papel dos domínios físico, social e cultural nos processos
psicológicos humanos; ou (c) integram perspetivas psicológicas de diferentes regiões do mundo.
A revista aceita artigos em Português, Espanhol, Francês e Inglês.
Diretórios: Repositório Cientíco de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP).
Base de Dados: Repositório Institucional da Universidade Autónoma de Lisboa (Camões).
Indexação: Academic Search (EBSCO Publishers)
Fuente Academic (EBSCO Publishers).
PUBLISHING INSTITUTION / INSTITUIÇÃO EDITORA
CIP – Centro de Investigação em Psicologia da Universidade Autónoma de Lisboa (CIP)
Rua de Santa Marta, n.º 47, 3.º, 1169-023 Lisboa
Phone Telefone: +351 213 177 667 | Fax: +351 213 533 702
LEGAL OWNER / PROPRIEDADE
CEU – Cooperativa de Ensino Universitário, C.R.L.
Rua de Santa Marta, n.º 47
1150-293 Lisboa – Portugal
Phone Telefone: +351 213 177 600/67
Fax: +351 213 533 702
N.I.F.: 501 641 238
DOI: https://doi.org/10.26619/2183-4806.XVII.NT
e-ISSN: 2183-4806
Title tulo: Psique
Site: https://cip.autonoma.pt/revista-psique/
Registration Status: Under Publishing Situação de Registo: Em Publicação
Format Suporte: Online
Registration Inscrição: ERC 126656 Date Data: 03-03-2015
Periodicity: Semiannual Periodicidade: Semestral
Editor in Chief Director: João Hipólito
Inscrição Inscription: 220129
Este trabalho é nanciado por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia – no âmbito do
projeto do CIP com a referência UIDB/04345/2020.
This work was funded by national funds through FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia – as part the
project CIP – Ref.ª: UIDB/04345/2020.
EDITOR IN CHIEF DIRECTOR
João Hipólito Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal jhipolito@autonoma.pt
ASSOCIATE EDITORS COEDITORES
José Magalhães
Luísa Ribeiro
Cristina Nunes
Rute Brites
Sandra Figueiredo
Odete Nunes
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidade do Algarve, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
jmagalhaes@autonoma.pt
mribeiro@autonoma.pt
csnunes@ualg.pt
rbrites@autonoma.pt
sgueiredo@autonoma.pt
onunes@autonoma.pt
EDITORIAL BOARD CONSELHO EDITORIAL
Alexandra Gomes
Ana Antunes
Ana Gomes
Anne-Marie Vonthron
Aristides Ferreira
Carla Moleiro
Célia Oliveira
Daniel Roque Gomes
David Rodrigues
Dulce Pires
Edlia Alves Simões
Filomena Matos
Florence Sordes–Ader
Gina C. Lemos
Inês Ferreira
Isabel Leite
Isabel Mesquita
Isabel Silva
João Viseu
Jorge Gomes
José Eusébio Pacheco
Liliana Faria
Luis Sérgio Vieira
Magda Soa Roberto
Manuel Sommer
Maria Cristina Faria
Marjorie Poussin
Melanie Vauclair
Miguel Ángel Garcia-Martin
Miguel Pereira Lopes
Mónica Pires
Monique K. LeBourgeois
Odete Nunes
Patrícia Jardim de Palma
Pedro Armelim Almiro
Pedro Duarte
Ricardo B. Rodrigues
Rosa Novo
Rui Costa Lopes
Saul Neves de Jesus
Sílvia Araújo
Tito Laneiro
Vera Engler Cury
Universidade do Algarve, Portugal
Universidade da Madeira, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Univerité Paris Ouest-Nanterre, França
ISCTE, Lisboa, Portugal
ISCTE, Lisboa, Portugal
Universidade Lusófona Porto, Portugal
Instituto Politécnico de Coimbra, Portugal
ISCTE, Lisboa, Portugal
I.Criap – Psicologia e Formação Avançada, Portugal
University of Saint Joseph (Macao), Macau
Universidade do Algarve, Portugal
Universidade de Toulouse, França
Universidade do Minho, Portugal
Universidade Europeia, Portugal
Universidade de Évora, Portugal
Universidade de Évora, Portugal
Universidade Fernando Pessoa, Portugal
Universidade do Algarve, Portugal
ISEG – Universidade Técnica de Lisboa, Portugal
Universidade do Algarve, Portugal
Universidade Europeia, Portugal
Universidade do Algarve, Portugal
Universidade da Beira Interior, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Instituto Politécnico de Beja, Portugal
Universidade de Lyon II, França
Instituto Universitário de Lisboa, Portugal
Universidad de Málaga, Espanha
ISCSP – Universidade de Lisboa, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
University of Colorado Boulder, United States of America
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
ISCSP – Universidade Técnica de Lisboa, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidad Veracruzana, México
Instituto Universitário de Lisboa, Portugal
Universidade de Lisboa, Portugal
ICS – Universidade de Lisboa, Portugal
Universidade do Algarve, Portugal
Universidade do Minho, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil
asgomes@ualg.pt
aantunes@uma.pt
amgomes@autonoma.pt
anne-marie.vonthron@u-paris10.fr
aristides.ferreira@iscte.pt
carla.moleiro@iscte.pt
celiargoliveira@gmail.com
drmgomes@gmail.com
rodriguesvid@gmail.com
dulcepires@ua.pt
edlia.simoes@usj.edu.mo
fmatos@ualg.pt
sordes@univ-tlse2.fr
gclemos@gmail.com
ines.ferreira@universidadeeuropeia.pt
imss@uevora.pt
mesqui@uevora.pt
isabels@ualg.pt
jnviseu@ualg.pt
jorgegomes@iseg.utl.pt
jpacheco@ualg.pt
liliana.faria@europeia.pt
lsvieira@ualg.pt
magda.roberto@labcom.ubi.pt
msommer@autonoma.pt
mcfaria@ipbeja.pt
marjorie.poussin@univ-lyon2.fr
melanie.vauclair@iscte-iul.pt
magarcia@uma.es
mplopes@iscsp.ulisboa.pt
mpires@autonoma.pt
monique.lebourgeois@colorado.edu
onunes@autonoma.pt
ppalma@iscsp.ulisboa.pt
paalmiro@autonoma.pt
pdias@uv.mx
rfprs@iscte-iul.pt
rnovo@psicologia.ulisboa.pt
rui.lopes@ics.ulisboa.pt
snjesus@ualg.pt
saraujo@ilch.uminho.pt
tlaneiro@autonoma.pt
vency2985@gmail.com
ASSISTANT EDITORS EDITORES ASSISTENTES
Afonso Herédia
Andreia Bandeira
Francisco Castro
Marisa Dolores
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
afonsodeheredia@gmail.com
andreia.lamy.bandeira@gmail.com
fcostacastro@gmail.com
marisadolores@gmail.com
TRANSLATION TRADUÇÃO
Carolina Peralta Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal cperalta@autonoma.pt
DESIGN COMPOSIÇÃO GRÁFICA
Undo geral@undo.pt
IT DEVELOPMENT DESENVOLVIMENTO INFORMÁTICO
Anselmo Silveira Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal asilveira@autonoma.pt
TABLE OF CONTENTS ÍNDICE
Breve Nota Editorial
Rute Brites, Cristina Nunes 7
Nota Editorial
Cláudia Carmo, Antónia Ros 8
Validação de uma tarefa de indução de sensações internas de tipo “not just right”
Validation of a task to induce internal sensations ofthe“notjust right” type
Rosado, S., Carmo, C. & Jiménez-Ros, A 10
O efeito de uma tarefa de indução de experiências “notjust right” em indivíduos não clínicos
The eect of a “not just right” experiences induction taskonnon-clinical individuals
Bôto, M., Carmo, C., & Jiménez-Ros, A. 30
Estudo da Relação entre a Incompletude e a Indução deExperiências “Not Just Right
Study of the Relationship between Incompleteness andtheInduction of Experiences Not Just Right
Ferrão, P., Ros, A, & Carmo, C. 52
Cognições perfecionistas no desempenho de uma tarefa de revisão de texto numa amostra
dejovens-adultos universitários
Perfect cognitions in the performance of a text review task in a sample of young adults
from the university
Coelho, J., Faísca, L., Ros, A., & Carmo, C. 74
Perfeccionismo, sintomatologia depressiva eacontecimentos de vida negativos na ideação
suicidaemjovens-adultos
Perfectionism, depressive symptoms and negative life events insuicidal ideation in young adults
Jenifer Mata, Ana Isabel Reis, Marta Brás 96
Author Instructions
Instruções aos Autores 122
Reviewers instructions
Instruções aos Revisores 130
7
BREVE NOTA EDITORIAL
Este número da Psique, que temos o prazer de publicar, é o primeiro mero temático desta Publica-
ção. Após um processo de reflexão da equipa editorial sobre a necessidade de levar a Psique mais além,
enquanto publicação científica de rigor, a equipa editorial abriu a possibilidade de colegas investigadores
proporem a edição de números temáticos da sua responsabilidade. O número que agora apresentamos é
a primeira concretização desse passo.
Este mero é dedicado ao tema Variáveis transdiagnósticas: Sensações internas e perfecionismo.
Reúne investigações no âmbito do estudo do perfecionismo e das sensações internas de incompletude de
que algo não escompletamente correto (Not Just Right Experiencies), variáveis que são, atualmente, con-
sideradas mecanismos etiopatogénicos comuns a rias perturbações psicopatológicas, o que justifica o
seu foco ao nível da investigação.
Agradecemos às colegas investigadoras Cláudia Carmo e Antónia Ros, editoras responsáveis pelo mero,
a sua proposta e o empenho na concretização deste número temático.
Agradecemos também a toda a equipa que tem acompanhado, em continuidade, os trabalhos da Psique e
cujo esforço tem permitido a manutenção da qualidade e diversidade dos artigos publicados.
Rute Brites e Cristina Nunes
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2021
8
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2021
NOTA EDITORIAL
A presente edição Variáveis transdiagnósticas: Sensações internas e perfecionismo surge da intenção de
organizar um número temático da Psique que integrasse alguns dos estudos que temos vindo a desen-
volver nos últimos anos no âmbito da compreensão dos fatores etiológicos comuns nas perturbações
emocionais.
O crescimento da investigação acerca do perfecionismo permitiu um conhecimento mais aprofundado
deste conceito e um conhecimento sobre a influência deste traço de personalidade em diferentes quadros
clínicos e em diferentes contextos.
O perfecionismo é um traço de personalidade multidimensional que envolve a procura pela perfeição,
o estabelecimento de padrões de desempenho excessivamente elevados e uma autoavaliação crítica
perante a perceção de falha.
O perfecionismo incorpora um conjunto de características cognitivas e comportamentais que assumem o
papel de fator de vulnerabilidade comum arias perturbações psicológicas (e.g., depressão, ansiedade,
obsessão e compulsão e perturbações da alimentação e da ingestão), sugerindo a sua natureza transdiag-
nóstica. Níveis elevados de perfecionismo parecem estar relacionados à etiologia, manutenção e predi-
ção de resultado no tratamento de alguns sintomas clínicos e subclínicos.
No início do presente culo, surgiu o interesse pela investigação de novas variáveis fortemente asso-
ciadas ao perfecionismo: as sensações subjetivas internas de incompletude e as sensações de que algo não
está completamente correto (Not Just Right Experiencies, NJRE). A sensação de incompletude é uma cara-
terística disposicional estável (traço) e as NJREs a componente estado desta variável traço. As sensações
internas impulsionam o individuo à realização de comportamentos até alcaar um sentimento interno
e subjetivo de completude que lhes permita poder parar de realizar o comportamento (stop criteria). Por
exemplo, uma pessoa que sente que as mãos não estão o limpas como deveriam estar (not just right),
sente-se impulsionada a lavá-las até alcançar o critério interno limpeza, ou seja, até subjetivamente
sentir que estão como deveriam estar. Embora o estudo destas variáveis tenha surgido no âmbito da
compreensão dos mecanismos motivacionais das compulsões na Perturbação Obsessivo-compulsiva,
são, hoje em dia, consideradas mecanismos etiopatogénicos comuns a rias perturbações psicopatoló-
gicas.
Neste domínio, esta edição da Psique reúne investigações que integram o estudo do perfecionismo e das
sensações internas de incompletude e Not Just Right em diferentes contextos e com diferentes metodolo-
gias.
O primeiro e o segundo artigo apresentam a indução experimental de sensações internas de tipo “Not
Just Right”, através de uma tarefa sensorial de tipo táctil e outra de memória em amostras da comunidade.
Ainda neste âmbito, o terceiro artigo realiza um estudo detalhado da relação entre a sensação de incom-
pletude e a indução de experiências “Not Just Right”.
O quarto artigo aborda a pertinência e o contributo da componente cognitiva do perfecionismo no desem-
penho de uma tarefa de leitura e revisão de texto académico numa amostra de estudantes universitários.
9
Nota Editorial
Por último, o quinto artigo explora a importância do perfecionismo, da sintomatologia depressiva e dos
acontecimentos de vida negativos dos jovens adultos na compreensão do processo suicidário, nomeada-
mente na ideação suicida.
A concretização deste número temático foi agora possível porque os participantes colaboraram com
entusiasmo e dedicação nas tarefas e desafios propostos, porque os autores foram persistentes na con-
cretização dos manuscritos e, acima de tudo, a Direção da Psique acreditou que este número seria um
contributo para a comunidade científica. A todos, Obrigada!
Cláudia Carmo
Antónia Ros
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2021
10
VALIDAÇÃO DE UMA TAREFA DE INDUÇÃO DE SENSAÇÕES
INTERNAS DE TIPO “NOT JUST RIGHT
VALIDATION OF A TASK TO INDUCE INTERNAL SENSATIONS
OFTHE“NOTJUST RIGHT” TYPE
Rosado, S.1, Carmo, C.2 & Jiménez-Ros, A3
PSIQUE • EISSN 21834806 • VOLUME XVII • ISSUE FASCÍCULO 1
1ST JANUARY JANEIRO  30TH JUNE JUNHO 2021 PP. 1029
DOI: https://doi.org/10.26619/2183-4806.XVII.NT.1
Submited on 22.03.21 Submetido a 22.3.21
Accept on 09.06.21 Aceite a 09.06.21
Resumo
Na literatura científica têm sido propostos três possíveis mecanismos motivacionais para a
realização das compulsões de lavagem e verificação, visíveis em alguns indiduos com Pertur-
bação Obsessivo-Compulsiva (POC). A necessidade de repetir determinados comportamentos,
até atingir um estado interno de satisfação ou de que algo já es como deveria estar (just right), é
um destes mecanismos. Estas sensações internas de insatisfação ou experiências sensoriais de “Not
Just Right” (NJRE’s) podem adotar diferentes modalidades sensoriais.
O principal objetivo deste estudo consistiu na validação de uma tarefa, de indução de sensa-
ções NJRE’s de modalidade sensorial táctil.
Os participantes (60 indivíduos da população não-clínica entre os 18 e os 60 anos) completa-
ram uma bateria de questionários com a finalidade de avaliar as experiências NJR, a POC, o Per-
feccionismo, a Depressão, a Ansiedade e o Stress, e participaram no fim numa tarefa laboratorial
para despoletar NJRE’s ao vivo.
A manipulação experimental realizada parece não ter conseguido induzir sensações inter-
nas de NJRE’s. No entanto, após a participação na tarefa, houve uma associação positiva entre
as sensações experimentadas pelos indivíduos durante a participação na mesma, e o resultado
do instrumento que avalia as NJREs assim como com alguns domínios do perfeccionismo. Estas
associações não se encontraram quando se analisaram os resultados obtidos pelos participantes
na condição de controlo. Discutem-se estes resultados e as suas implicações futuras.
1 Sara Rosado, Universidade do Algarve (Portugal); Campus de Gambelas, 8005-139 Faro, Portugal, email: sara_m_rosado@
hotmail.com
2 Cláudia Carmo (PhD, professor Auxiliar) – Centro de Investigação em Psicologia (CIP/UAL), Universidade do Algarve (Portu-
gal); Campus de Gambelas, 8005-139 Faro, Portugal, email: cgcarmo@ualg.pt
3 Antónia Ros (PhD, professor Auxiliar) – Centro de Investigação em Psicologia (CIP/UAL), Universidade do Algarve (Portugal);
Campus de Gambelas, 8005-139 Faro, Portugal, email: aros@ualg.pt
Autor para Correspondência: Sara Rosado, Universidade do Algarve (Portugal); Campus de Gambelas, 8005-139 Faro, Portugal,
email: sara_m_rosado@hotmail.com
11
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2021 pp. 10-29
Rosado, S., Carmo, C. & Jiménez-Ros, A
Palavras-Chave: Perturbação Obsessivo-Compulsiva, Sensações Internas, Experiências “Not Just
Right, Evitamento do Dano, Incompletude
Abstract
In the scientific literature three possible motivational mechanisms have been proposed for
performing the washing and checking compulsions, that some individuals with have Obsessive
Compulsive Disorder (POC). The need to repeat certain behaviors, until reaching an internal state
of satisfaction or that something is already as it should be (just right), is one of these mechanisms.
These inner feelings of dissatisfaction or sensory experiences of “Not Just Right” (NJRE’s) can
adopt different sensorial modalities.
The main objective of this study consisted in the validation of an task, induction of sensa-
tions NJRE’s of tactile sensorial modality.
Participants (60 individuals, nonclinical population, aged 18-60) completed a battery of ques-
tionnaires, with the purpose of evaluating NJR experiences, POC, Perfectionism, Depression,
Anxiety and Stress and participated at the end in a laboratory task to trigger NJREs experiences
live.
The experimental manipulation performed seems to have failed to induce internal sensations
of NJRE´s. However, after participating in the experimental task, there was a positive association
between the sensations experienced by the individuals during the participation in the task, and
the result of the instrument that evaluates the NJRE’s as well as some domains of perfectionism.
These associations were not found when the results obtained by participants in the control con-
dition were analyzed. These results and their future implications are discussed.
Keywords: obsessive-compulsive disorder, internal sensations, “not just right” experiences, avoidance
of harm, incompleteness
Introdução
A Perturbação Obsessivo-Compulsiva carateriza-se pela presença de pensamentos, impul-
sos ou imagens recorrentes e persistentes, de carácter intrusivo e indesejado (obseses) e/ou
comportamentos repetitivos ou atos mentais, que surgem com o propósito de reduzir o estado de
Ansiedade ou o sofrimento perante um acontecimento temido (compules) (American Psycho-
logical Association, 2013).
Estima-se uma prevalência da POC na população em geral de 2 a 3% (Ruscio et al., 2010).
A incincia anual da POC a nível internacional situa-se entre os 1.1% e os 1.8% (APA, 2013).
Aproximadamente 65% dos casos de POC surge antes dos 25 anos de idade (Macedo & Pocinho,
2007). No entanto, verifica-se que a idade de início da manifestação da POC é mais precoce nos
indivíduos do sexo masculino (em média, aos 21.1 anos), do que nos indivíduos do sexo feminino
(em média, aos 24.3 anos) (Lensi et al., 2007). Na idade adulta, a prevalência parece ser ligeira-
mente superior nas mulheres do que nos homens. Na infância, pelo contrio, parece ser mais
prevalente no sexo masculino (APA, 2013). Quando existem antecedentes familiares com história
12
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2021 pp. 10-29
Experiências Not Just Right: validação tarefa
clínica associada à POC, esta pode surgir mais precocemente (Pauls et al., 2007). Existem determi-
nados acontecimentos de vida negativos que tornam o indivíduo mais vulnerável ao surgimento
da POC. Os motivos mais frequentes estão associados a problemas sexuais e matrimoniais, luto
recente, seguidos de problemas laborais, gravidez e parto ou a uma mudaa que envolva um
aumento dos níveis de responsabilidade (Rachman, 2002).
Inicialmente descrita como um fenómeno unitário, a POC tem vindo progressivamente a ser
conceptualizada como um fenómeno heterogéneo e dimensional. Atualmente encontra-se cate-
gorizada dentro do espectro obsessivo-compulsivo no Manual Estatístico para as perturbações
mentais (DSM-5) (APA, 2013).
Os sintomas característicos da POC (obsessões e compulsões) podem manifestar-se através de
diversas formas e conteúdos. Com base no conteúdo das obseses, é possível categorizá-las em
diferentes tipos, como por exemplo, contaminação (das obseses mais frequentes e relacionadas
com as preocupações acerca da sujidade, dos “germes” e dos medos associados à contaminação),
dúvida patológica (permanente incerteza quanto à prática de um ato temido ou desagradável),
somáticas (medo excessivo de adoecer e de puder vir a ficar doente), simetria (desejo perma-
nente de que as coisas sigam uma determinada ordem que para si é a correta), impulsos agressi-
vos e sexuais (receio constante de não conseguir evitar e controlar todos os atos considerados por
si imorais e que causem repulsa) (Macedo & Pocinho, 2007; Torres & Smaira, 2001; Vallejo, 1992).
Para as compulsões m sido descritas diversas formas de manifestação: verificação (são as que
surgem com maior regularidade, necessidade de verificar as coisas repetidamente, para garan-
tir a segurança), lavagem e limpeza (executadas com a finalidade de eliminar bactérias e ger-
mes (prevenção do dano ou harm advoidance) ou de garantir a “perfeição, que proporciona uma
sensação interna de satisfação ou ainda por uma sensação de contaminão mental), contagem
(a maioria das vezes o mentais, os indivíduos realizam cálculos aritméticos desnecessários),
simetria (vontade de que as coisas sejam organizadas através de um padrão cuidadosamente
simétrico ou ordenado) e impulsos sexuais (desinibição sexual que leva a comportamentos que
comprometem as relações interpessoais) (Brosan et al., 2010; Fisher et al., 2010; Garcia-Soriano et
al., 2016; Macedo & Pocinho, 2007; Rosário et al., 2009; Summerfeldt, 2004; Torres & Smaira, 2001).
As obseses e as compules apesar de surgirem frequentemente de forma concomitante,
também podem surgir sem terem uma relação entre si. As compulsões são realizadas para neu-
tralizarem uma sensação incómoda que cause um mal-estar significativo ou um sentimento de
que algo se encontra incompleto (Torres, 2001).
De acordo com Pitman (1987), em 1903 o dico e psicólogo francês Pierre Janet através do seu
trabalho “Les Obsessions et la Psychasthénie, descreveu pela primeira vez os acontecimentos rela-
cionados com a perceção, em que as ações são alcançadas incompletamente ou quando a sensação
de satisfação não é alcaada, denominando-os por sentimentos de incompletude. No entanto,
no DSM-5 é que foram reconhecidas como Respostas Afetivas presentes na POC (APA, 2013). Em
1908, Janet caracterizou a incompletude como uma diversidade de experiências que englobam a
imperfeição de si mesmo, os pensamentos, as emoções, as ações e o ambiente (Taylor et al., 2013).
A incompletude é retomada na psicopatologia da POC em 1992 por Rasmussen e Eisen, tendo
sido a partir de então denominada de diferentes formas por diferentes autores, como por exem-
plo, Deficits na Sensação de Saber na POC (Rapoport, 1991), Experncias NJR (Leckman et al.,
1994; Coles et al., 2003), Fenómenos Sensoriais (Miguel et al., 2000) e Sensibilidade de Percepção
(Veale et al., 1996).
13
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2021 pp. 10-29
Rosado, S., Carmo, C. & Jiménez-Ros, A
Summerfeldt (2004) considera a incompletude como um défice associado à experiência emo-
cional e à resposta sensorial, com a finalidade de conduzir o comportamento. Pode ser conside-
rada como um indicador emocional que permite compreender quando é que um estado é comple-
tado de forma satisfatória (Ecker & Gonner, 2008; Szechtman & Woody, 2004; Summerfeldt et al.,
1999). Poderá também ser analisada como o extremo de uma quantidade de sintomas obsessivos
e/ou compulsivos, ou então, traços de personalidade patologicamente perfeccionistas (Coles et
al., 2008; Ecker et al., 2013).
Rasmussen e Eisen (1992) informam de que a maioria dos pacientes com POC, referem ter
uma sensação interna, que está interligada com a vontade de que as tarefas sejam realizadas
na perfeição, totalmente corretas e sob controlo, enquanto a ão não for realizada na perfei-
ção, os indivíduos sentem-se incomodados (NJREs), assemelhando-se ao perfeccionismo na POC
(Summerfeldt, 2004).
As experiências NJR podem ser entendidas como uma discrepância entre o estado real e o
estado pretendido pelo indivíduo (Coles et al., 2003). Na POC considera-se o estado pretendido
pelo indivíduo, como o desejo de perfeição e de certeza, contudo, inatingível (Rasmussen & Eisen,
1992; Grayson, 2010; Pitman, 1987). Os indivíduos de forma contínua vivenciam experiências
NJR e com a finalidade de alcaarem o estado pretendido, são motivados a comportarem-se de
modo compulsivo (Coles et al., 2003).
Estas experiências NJR são acontecimentos individuais e podem ser interpretadas como sen-
sações subjetivas, que orientam o sujeito agir de modo a conseguir terminar com elevados senti-
mentos de imperfeição, associados às ações, intenções e perceções, que foram atingidas de modo
incompleto ou quando o meio não se encontra como deveria estar (Coles et al., 2003; Leckman et
al., 1994). Existem vários exemplos destas experiências, mas as mais comuns são dobrar peças de
vestuário e achar que não ficaram dobradas da maneira certa, escrever um texto e julgar que as
palavras estão incorretas ou olhar para uma prateleira com livros e achar que não estão alinha-
dos com os restantes (Rachman, 2002).
As sensações de desconforto e de insatisfação perante determinada situação momentânea,
referem-se à componente afetiva, que se rege pela necessidade de eliminar o desconforto, atra-
vés de esforços orientados para o fim pretendido (Summerfeldt, 2004).
Summerfeldt et al. (1999) alegam que muitas vezes as compules têm como finalidade mini-
mizar o sofrimento, ao invés de impedir que as consequências temidas surjam. Quando as con-
sequências temidas não são percecionadas, o motivo poderá recair sobre as experiências NJR. As
experiências NJR podem funcionar como um elemento identificador de uma eventual vulnerabi-
lidade da POC, como por exemplo, quando estamos perante sintomatologia ansiosa, na perturba-
ção da ansiedade, a ansiedade vai funcionar como um indicador psicológico (Brown et al., 2003;
Rapee & Medoro, 1994; Schmidt et al., 1997).
Existem determinados sintomas obsessivos/compulsivos, a que as experiências NJR estão
associadas, nomeadamente, ordenação e organização, controlo, lavagem e obsessão (Taylor et al.,
2014). Ferrão et al. (2012) referem que as compulsões que acontecem com mais regularidade, são
as de simetria, ordenação e organização e quando antecedem as experiências NJR são avaliadas
como sendo mais graves.
Como foi anteriormente referido, as experiências de tipo NJR podem adotar diferentes moda-
lidades sensoriais, tendo sido propostas tarefas de modalidades diferentes para a avaliação das
mesmas. Por exemplo, para a visão pode-se solicitar aos sujeitos que observem a simetria dos
14
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2021 pp. 10-29
Experiências Not Just Right: validação tarefa
objetos, para a audição pode ser solicitado aos sujeitos que escutem a mesma melodia, para o
paladar pode-se pedir aos sujeitos para experimentarem diferentes sabores, para o olfato poderá
ser pedido que tenham perceções olfativas diferentes e para o tato podem-se convidar os partici-
pantes para através do toque, sentirem diferentes texturas. Contudo, as experiências NJR podem
apresentar um carácter mais complexo no domínio da cognão, como por exemplo, quando não
conseguimos exprimir os nossos pensamentos da melhor forma através das palavras (Summer-
feldt, 2004).
Estes fenómenos sensoriais (incompletude e NJREs) têm sido avaliados através de medidas
de autorrelato e estudos laboratoriais. O Obsessive-Compulsive Core Dimensions Questionnaire
(OC-CDQ) (Summerfeldt et al., 2001) avalia duas dimensões: a incompletude e o evitamento do
dano (têm revelado uma forte consistência interna e uma boa validade convergente). O Not Just
Right Experiences – Questionnaire-Revised (NJRE-Q) (Coles et al., 2005) mede o número e a seve-
ridade das experiências NJR referentes ao mês anterior (apresenta uma boa convergência e uma
validade discriminante e os 10 primeiros itens do questionário exibem uma boa consistência
interna). Atualmente, existem estes dois instrumentos de autorrelato validados para estudar
este tipo de fenómenos sensoriais (Summers et al., 2014).
Summers et al. (2014) referem que os instrumentos de autorrelato que avaliam as sensações
internas NJR, apresentam algumas desvantagens como por exemplo, não possibilitarem que os
fenómenos sensoriais sejam manipulados experimentalmente e apesar de estarem implementa-
dos nas medidas, itens relacionados com as experiências sensoriais, não avaliam de forma indi-
vidual a gravidade das NJRE’s, com as diferentes modalidades sensoriais (visual, táctil e auditivo).
O nosso estudo pretende validar a tarefa táctil (casaco) de indução de experncias NJR
implementada por Summers et al. (2014). Tentaremos compensar algumas das limitações apre-
sentadas pelos autores. Uma destas limitações refere-se à importância de comparar duas tarefas
(uma tarefa de indução de NJRE’s e uma tarefa neutra de controlo) no efeito causado sobre os
sintomas obsessivos e compulsivos e o perfeccionismo e assim poder clarificar o papel da expe-
riência NJR na sintomatologia POC. Procuramos colmatar esta limitação, criando neste estudo
dois grupos, um de indução de NJREs e outro grupo de controlo. A escassa literatura encontrada
sobre esta temática, tornou-se num ponto negativo para a realização deste artigo.
A presente investigação pretende validar a tarefa táctil de indução de sensações internas
de NJR. Foi selecionada a tarefa de modalidade táctil por consideramos que é uma tarefa de
fácil implementação. Esta tarefa pode ser realizada em qualquer local com condições adequadas
(e.g., intimidade, boa luminosidade, ausência de barulho e de elementos distratores). O material
necessário (bata) é fornecido pelo investigador e por acharmos que será mais cil de replicar a
experiência optámos por utilizar uma bata em vez de um casaco. Consideramos que o facto de
pedir aos participantes que vistam uma bata que não lhes pertence e que pode ter sido vestida
por mais pessoas poderá provocar um aumento dos níveis de desconforto associados à tarefa.
Por este motivo, foram incluídas questões relacionadas com as sensações de limpeza e sujidade
experimentadas pelos participantes para poder assim controlar o possível efeito desta variável.
O principal objetivo desta investigação consistiu em validar uma tarefa de indução de sensa-
ções NJR de modalidade sensorial tácti